Wednesday, December 23, 2009

Ponto Zero

Não é.
Acordo repentinamente, em posição fetal; o coração em sobressalto, gotículas de suor na minha testa. Aquela frase a ecoar, Não é...
Estou cansada, frustrada!... Sei que é uma ilusão, sei que não estás aqui, sei que não queres, sei que não quero, sei que não posso, sei que não devo, sei que agora não é o momento, sei que nunca, NUNCA será o momento!!! Pareço um disco riscado, como se a minha mente regredisse ao ponto zero, como se as horas neste divan não tivessem deixado marcas em mim. Volto sempre a ti e o motivo... é-me indistinto.
Não quero voltar, não quero voltar! Isolei-me para me purificar... Só queria deixar de pensar, deixar de sentir! Não tens culpa; a culpa é minha, é minha por não quebrar estas correntes! Estas correntes... Prendem-me delicada e docemente a ti...
Não! Eu não quero! Não quero imaginar o teu abraço, não quero lembrar o teu sorriso, não quero ansiar pelo teu calor... Não quero ver o brilho da Estrela nos teus olhos!... que os nossos corpos se amem e as almas se fundam enquanto durmo... Para quando acordar enfrentar mais uma vez que nada disso é.
Quanto mais vou ter que aguentar... até o sonho morrer...?
Até a Estrela empalidecer...
Até o Amor desvanecer.

Tuesday, November 17, 2009

Lua Nova

Sinto-me cega. Olho em volta e tudo é negro, à excepção de milhares de pequenos pontos brilhantes no céu. O luar, esse, apagou-se. Não sei quando; não sei por quanto tempo. Está apagado.
É como se estivesse perdida. Não sei que direcção tomar, porque todos os caminhos estão cobertos de dúvida, de insegurança; o desconhecido. Um véu de breu.
Todos os caminhos excepto o céu. O céu... Negro, sim, mas salpicado de esperança, reluzente. A esperança, no entanto, poderá não passar de uma miragem... Pois todos sabemos que a luz que nos chega pode ter viajado através de anos-luz, a partir de uma estrela que, agora, não tem mais brilho, caiu na escuridão, como os caminhos que se abrem a meus pés.

Por vezes sinto-me como um paradoxo: as minhas emoções, a minha razão, as minhas atitudes entram em conflito quase constante. Considero-me optimista, no entanto as minhas expectativas estão sempre baixas. Não há maneira poética de expressar isto que sinto; toda a poesia foi escrita, já, por outrem, e não me resta nada para dizer.
Sei que me aceitas por aquilo que sou. Talvez até me ames, dessa tua maneira tão particular de me amar. Porém, receio que esse brilho líquido no teu olhar seja já uma estrela extinta. Será isso que nos impedirá de tentar?
Provavelmente.

Continua escuro. Não há luar. Uma aragem fria arrepia-me o corpo. Admiro o som do oceano, longínquo, como tu; recrio a beleza da sua complexidade na minha mente.
Queria apenas entregar-me nesse mar... Se fosse real...

Sunday, October 18, 2009

Cair na realidade

Mas, ai! o que é isto que sinto, sem aviso? Se foste e levaste o meu sonho contigo, para quê voltar com prosas líricas, aromas quase passados ao esquecimento...? Que prazer é esse que tens em provocar vida no meu coração imóvel, apenas para depois o dilacerares um pouco mais?
Antes fique parado eternamente, em vez de lágrimas me banharem o rosto novamente! Novamente por ti, novamente porque não estás, porque chegaste e partiste logo!... Deixa a minha saudade velar a tua ausência na paz do silêncio.
Se for para o quebrar, que seja de rompante e em pleno, uma orquestra inteira a anunciar-te! Mil folhas flutuando ansiosas, à espera que lhes beba as tuas palavras, cânticos infinitos de amor e aventuras...! Seria inteiramente tua, atravessaria montes e vales, mares e desertos para te encontrar numa clareira, aguardando-me, sorriso abençoado pelas estrelas...

Porque partes? Porque te vais? Não vás! Porque foste? Vem me buscar... Não me deixes sozinha... Volta, volta para mim!

Sei que não tenho o direito de te pedir isto... Mas, se o que é justo vai contra o que desejo e sinto agora, então cala a doçura na tua voz, apaga, por favor, o brilho dos teus olhos...
E deixa que apenas a saudade me lembre de ti.

Pluma no alto cume

Era uma nuvem negra à minha volta. De uma densidade que a tornava quase opaca e sufocava. O que é que eu tenho de errado? Tento escalar a cordilheira, chegar mais alto para poder assim olhar o mundo como ele é e encontrar conforto na verdade finalmente compreendida, sem o engano de folhagens ou névoas nos meus olhos... Para poder assim seguir o caminho que se estende diante de mim.
Mas quando estou já a agarrar a última pedra do monte mais alto, esta solta-se, escorrego e a queda... quando dou por mim estou no sopé da montanha. E ao olhar a paisagem vejo tudo turvo de novo, nada me faz sentido e aperto da dúvida agonia cá dentro, faz-me dobrar o meu corpo sobre mim própria, agarrada ao peito, cheia de raiva.
Talvez a visão enublada seja apenas sangue escorrendo para os meus olhos da ferida que se abriu quando caí. Talvez baste limpar o sangue e olhar de novo o horizonte... E compreender que é possível que a verdade nunca se mostre inteiramente de uma vez, só porque a persigo em desespero.
Percebi isto contigo... Era uma nuvem negra à minha volta naquela tarde. E é incrível como mesmo depois de tudo o que ouvi e disse, senti uma paz de espírito como há muito tempo não sentia. A verdade atingiu-me sem eu estar à espera, sem a ter procurado; ela veio até mim a acalmou-me o coração. Naquele momento percebi...

Friday, August 14, 2009

Um abraço de brisa

Sinto a maresia beijar-me o rosto, suavemente, como uma carícia de ti, que imagino ao olhar este mar... Mar cantando, embalando-me com a sua voz, docemente, ao sabor das ondas... Ondas que espumam e desmaiam na areia, um gemido distante... Espuma branca, confunde-se com as vestes que me cobrem, dançam ao vento chamando por ti... Chamando por ti...
Sinto-te longe e perto, paradoxo angustiante.
Porque chega sempre o verão? Porque me queima o sol a pele, revela as marcas que me deixaste no coração, denuncia a tua ausência uma vez mais? Não quero relembrar que não estás aqui... Não quero. Incute na minha alma um desejo doloroso, desejo de te encontrar, perdido na praia, na esperança que me estivesses também a procurar pelas areias... Procurar-me-ias?
O vento suspira ao meu ouvido, coisas que não entendo. Sob o luar o mar brilha como mil pedras preciosas; ali estás, longínquo, de costas viradas, enfrentando o horizonte de breu. E não te consigo tocar, não te consigo alcançar... Nunca. Não sozinha.

Aperta cá dentro...

Respira o ar salgado, sente-o na pele... O reflexo argênteo da lua no teu vestido, envolvida num abraço de brisa... Hoje é o dia. Adeus.

Monday, July 27, 2009

Não posso mais do que suspirar...

Estava no carro, no lugar do pendura, a voltar de um dia de praia com uma amiga. Conversávamos sobre muitas coisas, mania de mulheres, talvez, sempre na tagarelice...!
Quando dei por mim, falava de ti, contava a nossa história... E ao contar, foi como se a revivesse por alguns momentos, cada passo. Como nos conhecemos, o que dissemos um ao outro, a intensidade de um olhar, a segurança de um sentimento que vale o que vale por si só, sem qualquer incentivo ou artifício. Essa segurança continua a ser a única certeza que levo dentro de mim. Acalma-me.
Quando finalmente voltava para casa, agora sozinha no meu carro, perdia-me nos pensamentos de ti ao sabor da condução. Que estarás tu a fazer agora? Por onde viaja a tua mente? O que desejas, o que sentes?
Numa curva, olhei o poente... O sol já se tinha escondido no horizonte, o céu pintado de laranja, rosa e azul, a silhueta negra dos prédios e as luzes da cidade a brilhar timidamente: um glorioso espectáculo que me fez sorrir.
Imaginei-te ao meu lado, olhando as cores também, sorrindo. Aquecendo-me o peito com a tua presença apenas. Imaginei os teus olhos nos meus, daquela maneira que só tu e eu compreendemos...
Não posso mais do que suspirar perante este cenário... E esperar que um dia o mito se torne realidade.

Thursday, July 02, 2009

Cinzas

É esta inquietude que me assola, por vezes, e me faz parar por momentos. Como se um arrepio gelasse as articulações, as tornasse imóveis. E o coração saltasse um batimento.
A vida é tão curta, passa por nós de relance, um reflexo de sol na janela, encandeia-nos e desvanece; escapa-se por entre os dedos...
O que estou aqui a fazer, afinal? Mera espectadora, quando pensei ser actriz principal.
Quero ver, caminhar, ouvir, saborear, cheirar, interpretar, sentir o mundo em pleno! Quero tudo isto de mente aberta, alma lavada, purgada, pelo menos um vestígio da luz há muito perdida... Será ainda possível? Se ao menos tivesse coragem, me tornasse eu própria mudança e renascimento, ao invés de esperar que eles cheguem até mim um dia... Apenas cinzas, na verdade. Cobarde...
A culpa, o medo, a vergonha... Um hábito que carrego mas pareço nem sentir, sobre as lágrimas que não se vêem, o grito calado que não soa nunca. Como eu queria poder gritar... Abrir o peito e gritar gritar gritar!... Porque não sai, nada disto sai de mim! Não sai, não sai!!!
Se sou tão inútil e irrelevante, para quê lutar para depois desistir? A dor quando nos largam no meio do deserto... O melhor seria nunca me terem salvo.

Shh... Encosta-te a mim... Já passou... Eu estou aqui... E não vou a lado nenhum... Porque tu importas... Porque eu te amo.

Friday, June 05, 2009

Falta

Estou cansada... Cansada de lutar, cansada de correr, cansada de me agarrar a uma ideia, uma miragem! Tudo se dissipa, como vapor, ao mínimo sopro. Porquê tentar, então?
Queria poder largar tudo, deixar-me cair numa pilha de folhas secas de outono, esperar que a primavera estendesse uma esteira de flores para mim, confiar-me ao seu cuidado... Encontrar finalmente o equilíbrio!
Sonhei que algo lhe sufocava o coração, angustiava... E chorava no meu ombro, apertava-se contra o meu peito, com tal desespero que doía e me fazia chorar também... Ponho-me a pensar, por vezes, se eu desaparecesse, será que alguém sentiria a minha falta?
Porque não estou lá como antes... E a vida continua, inalterada, como se nunca tivesse aparecido.

Estrela estava deitada na areia, à beira-mar. O sol descia já no céu e a maré subia, beijando-lhe os pés. Olhava o azul por cima de si, perdida nos seus pensamentos, conflitos que a assombravam desde... Não sei desde quando...

Queria que o simples toque do sol na minha pele me deixasse mais leve. Sinto que a cura está tão longe, não a consigo alcançar... Estarei desamparada?
Cuida de mim... Amor...

Um lençol de mar trepou a areia em direcção a Estrela. E abraçou-a, enfim.